Quando eu era criança eu amava olhar álbum de foto de família. Eu acho muito massa, tipo mesmo que eu não lembre de nada daquelas fotos, me causa alguma coisa olhar praquilo, sabe? Então a partir dali eu percebi que eu gostava muito de olhar imagens. Eu sempre fui uma criança mais sozinha, mais introspectiva e eu achava esse conforto [nisso]. E daí depois eu comecei a fotografar com aquelas câmeras cybershot, que eu levava pra rolês assim. Porque tipo, eu morava numa cidade do interior onde só tinha rolê hetero-top, pagode, sertanejo e eu não gostava, mas eu saía porque eu era adolescente, tinha que dar um rolê. Eu saía e eu não me comunicava muito com ninguém, eu me comunicava tirando fotos.

Depois eu mudei pra cá, daí eu fotografava mais com o celular. Comecei a tirar nudes de uns amigos meus quando eu dividia apê com um amigo. Ele mandava [as fotos] pros boys (risos). Eu comprei uma câmera e tipo tô até hoje fotografando. Eu to ressignificando a fotografia na minha vida como trabalho. E ainda mais agora na pandemia, eu percebi que é algo muito mais pessoal meu do que "trabalho", algo comercial. É muito mais, tipo, de coisas que eu tenho vontade de fazer. Eu uso a fotografia como uma linguagem, como eu me comunico.

Eu sou de Guaporé, uma cidade do interior aqui do Rio Grande do Sul. É uma cidade bem pequeninha assim, tem uns 20 e poucos mil habitantes. É beeeem conservadora. Nunca me identifiquei com lá, tanto é que eu passei a minha adolescência até completar 18 anos falando que eu ia embora. Dito e feito, fiz 18 anos e vim pra Porto Alegre, onde moro há quase 8 anos. Eu gosto bastante daqui, é uma cidade que eu me identifico bastante, porque não é uma cidade gigante onde tu se sente minúsculo, mas também não é uma cidade pequena onde todo mundo se conhece. E enfim é uma fase bem marcante da minha vida ter vindo pra cá. Mas eu sinto bastante vontade de conhecer outros lugares assim. Mas eu me sinto muito taurino né, tô confortável aqui.





Quando eu tava lá em Guaporé, eu sempre fui bem mais introspectivo, daí eu vivia muito a minha adolescência na internet. Eu tinha fake (risos) e o meu fake era de menino. O último nome que eu tive foi Vicente e daí eu mentia até o meu off assim, que eu era menino também. Mas foi aí que eu descobri minha sexualidade porque no fake eu me relacionava com meninas e eu sentia vontade de ficar com elas. Eu nunca fui de ficar com muitas pessoas, fiquei com uns caras mas não curtia muito. Depois eu comecei a me aproximar mais de um outro rolê em Guaporé, que era um rolê mais LGBT, e eu acabei ficando com uma mina, que foi o meu primeiro beijo gay, de lésbica. Logo em seguida eu me mudei para Porto Alegre. Eu ainda tava meio travadinho assim, não tinha nem perdido a virgindade. Foi tudo muito devagarinho, eu sempre fui uma pessoa com mais cautela nas minhas relações. E eu comecei a dividir apê com um menino que é gay, o Lucas, e a gente começou a dar rolês juntos. E aí eu entrei de vez no mundo LGBT de Porto Alegre. Daí só foi indo. Aí tive uma fase bem sapatão, comecei a ficar com mais mulheres.

E faz uns 2 anos… Eu sempre pensei nisso, mas era uma coisa que eu pensava mas não concretizava. Era um desejo que eu tinha assim, de olhar os caras e, tipo, admirar de alguma forma, mas era por querer ser meio igual, de 'ai, quero usar essas roupas', ou sei lá, usar boné. Usar boné era uma coisa que eu sempre quis, só que meu cabelo era cacheado e era comprido e tipo eu botava e não gostava. Eu usava muito cabelo preso quando eu tinha cabelo cacheado e daí.. Nossa, quando eu cortei... Eu tava com a ideia de raspar do lado, daí tava com essa ideia na cabeça e ia ser uma mudança muito radical assim pra mim. Cheguei a sonhar assim uma noite, é o sonho que eu lembro até hoje, de tão marcante que foi, que eu tava muito livre no sonho, meio voando, porque eu tinha cortado o cabelo. E daí nessa mesma semana eu cortei o cabelo e foi libertador. 

Eu comecei a me aproximar mais de um rolê sapatão. Mas eu também não me identificava. Porque eu tava num rolê sapatão e era aquele ódio ao homem, enfim... Aquela coisa que a gente viveu. A gente nasceu no sexo feminino e a gente passa pelas mesmas situações que mulheres cis. Enfim, eu me sentia meio desconfortável, porque ao mesmo tempo que eu pertencia parecia que eu não pertencia. Porque eu tinha esse mesmo ódio, essa mesma revolta, mas de uma forma que, sei lá.. Achava que tinha salvação, não sei... Eu tive a sensação de não me encaixar também. De me sentir muito confortável por estar no meio de um monte de mulheres porque é uma relação de mais respeito, de companheirismo, de ajuda e tal. Mas eu me senti desconfortável, pelos meus motivos, minha vivência.

Eu tava indo em uma outra terapeuta e eu toquei no assunto na terapia… Eu tava ficando com uma mina que era bi e não monogâmica, e ela ficava com caras. E eu ficava muito no teto de ficar me comparando com os caras, só que de uma forma muito ruim, tipo,' meu deus, não tenho pau', 'não tenho barba', 'não tenho um corpo masculino'. Eu ficava muito tetiando em cima disso. E eu comecei a me sentir muito mal. Levei isso pra terapia e falei que tava confuso, que tava até com pensamento de achar que era um homem. E ela não adentrou muito no assunto, essa minha terapeuta, sabe. Daí eu fui mais algumas vezes com ela e mudei de terapeuta. É a que eu vou até hoje assim, [ela] super lidou de uma forma muito massa e que fechou comigo. Porque hoje em dia falo até um pouco melhor assim, mas eu sou muito travado. Eu solto o assunto e depois eu fico quieto, tá ligado, você que resolva (risos). E daí ela pediu pra eu levar fotos. Eu mostrava as fotos e a partir das fotos eu falava o que eu via. Eram auto retratos.. E daí, bá, super foi fundamental isso. Quando eu comecei a verbalizar isso do que eu tava sentindo, do que eu tava confuso, eu fui começando a me aproximar mais da comunidade trans, da comunidade queer.

E eu fui vendo que era normal, que tinham muitas pessoas iguais a mim. 








Por um tempo eu achei que eu só poderia ser quem eu era quando meus pais falecessem. Eu fiquei muito frito nisso da minha família. Acho que [era] o que mais me deixava para trás. Por eu pensar que eles são do interior, que eles nunca iriam compreender. E daí meio que passou agora um ano já que eu to fazendo a minha transição e que eu real me aceitei.

Foi um processo demorado um pouco pra eu me aceitar. E eu contei pra minha mãe e ela foi super.. Me surpreendeu sabe. Eu tô um pouco nervoso que eu vou pra lá semana que vem, que eu vou ver meu pai. E eu não contei pro meu pai ainda. E ele é uma pessoa mais conservadora assim. Mas acho que vai ser de boa. Talvez ele não toque muito no assunto, talvez ele fale "ah, tudo bem" mas não adentre muito no assunto. O meu pai não tem uma relação aberta com muita gente. Ele vive meio numa bolha dele, meio alienado, onde a opinião dele é a que conta. Ele é uma pessoa um pouco difícil de conversar, sabe.

Com a minha mãe melhorou já a relação. Minha mãe sempre foi uma pessoa não muito animada com a vida. E uns dois anos atrás ela teve uma deprê bem foda. Ela foi internada aqui em Porto Alegre e a partir disso a gente acabou se aproximando bem mais. Parece que agora ela tá mais aqui sabe, mais presente, ela tá mais ligada, com vontade de saber sobre a minha vida, ela pergunta, ela se interessa. Antes não tinha muito isso. E ela sempre foi uma pessoa muito fria. Então, tipo… abraçar, pra mim, agora que eu consigo abraçar as pessoas. E eu gosto de abraçar as pessoas. Mas antes era uma coisa muito fria assim, por essa relação que eu tinha com a minha família, de ser algo meio distante.

Minha irmã mais velha, a primeira vez que eu saí do armário (risos), que eu me assumi lésbica, ela me perguntou e falou que já imaginava, que já tinha comentado com a minha [outra] irmã e tal. E daí agora dessa vez, da segunda vez, de eu ser trans, ela me mandou "ai Lau, agora você é trans?" (risos). Aí eu "ah, o que tu entende de transgênero?" e ela "ai não sei, to confusa, uma hora você era gay e agora é trans" (risos). E daí eu "tá a gente pode conversar e tal, eu te ligo e a gente conversa". Eu tava muito ansioso, de querer falar com alguém da minha família sobre isso, sabe? Daí eu falei com ela primeiro. E ela chorou, foi um drama assim, mas ela entendeu. Daí eu dei um tempo e depois de alguns meses eu tive essa conversa com a minha mãe e minha mãe foi mais de boa que a minha irmã. Nem chorou.

Nossa eu tava muito frito da cabeça, muito frito da cabeça. Eu tenho cartas, escrevi cartas pros meus pais pra tentar elaborar como contar. Eu tenho umas quatro cartas que eu escrevi, porque eu falava muito disso na terapia, de tipo, como contar e como ia ser. E eu não me aceitava, parecia que eu não saia… Eu não postava coisas, eu percebi que eu me escondia um pouco assim, por conta disso, de não querer mostrar tanto. E daí eu comecei a escrever e eu lembro que nas primeiras cartas eu falava sobre o ser não-binário, que eu não me identificava como um homem trans ou transmasculino, era mais tipo não-binário. Eu não pensava em tomar hormônio também. Pensei bastante assim antes de iniciar a terapia. Porque é uma mudança. Cara, em três meses tu tá tipo muito diferente sabe, é muito rápido. Mas foi louco o processo.









É um caminho bem difícil e doloroso de percorrer, porque não é tipo em um ano, é tua vida inteira. Mas é muito bonito quando a gente consegue se… não sei se é até se aceitar a palavra, mas é meio que isso assim, de se entender, de se conhecer. Eu acho muito bonito assim ver, parece que desabrocha. Floresce, sei lá, sai do casulo (risos). Eu vejo muito isso assim, sabe? Eu acho lindo.




Eu sempre fui muito indo com calma, tanto é que começou a me incomodar porque eu meio que acabava me privando de fazer algumas coisas, de postar algumas coisas. Até que chegou um momento que eu não tinha mais como esconder. E eu não queria ficar fazendo a minha barba ou… porque eu não queria mais me esconder sabe. E daí isso começou a me incomodar bastante. Mas acho que foi tudo no tempo... no meu tempo. Não vou dizer o tempo certo porque, sei lá, é relativo. Mas no meu tempo, sabe? Foi bom porque acredito que a minha família teve o tempo necessário para entender. Foi acontecendo, eles foram vendo a mudança.














Se eu não fosse trans eu gostaria de ser trans (risos). Sério, eu amo não ser cis, não estar dentro dessa caixa, dessa coisa normativa.

Quando eu fui no ambulatório T, na segunda ou primeira vez, eles perguntaram "qual tua orientação sexual?" e eu "trans!" e eles "não, a tua orientação sexual? Tu se relaciona com mulher ou com homem?" e eu "com mulher" e eles "então tu é hetero" e eu "nããão, não sou hetero!" (risos).






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Isso das minhas relações também é uma coisa que me deu uma bugada. Porque antes eu era uma mulher lésbica, me relacionava com mulheres. E depois de um tempo eu continuei me relacionando com mulheres, mas eu não me via mais como uma mulher e daí as pessoas que eu tava me relacionando eu vi que não tava mais fechando porque eram minas lésbicas. Não tava mais rolando. E daí isso foi, me deu uma bugadinha na cabeça. Enfim, uma mudança louca.

Eu to percebendo que eu to sentindo atração por homens… até me questionei esses dias se eu sou gay agora de novo (risos). Mas eu acredito que eu sou pansexual. Porque eu sinto atração por pessoas na verdade, não gênero. Mas eu ainda acho que sou um pouco conservadorzinho... eu ainda tô me abrindo pra essas relações assim, pra explorar melhor isso. Porque eu sempre me relacionei com mulheres e é um outro tipo de relação, parece que é um pouco mais cuidadoso assim, mais acolhedor. Eu nunca me senti desconfortável com mulheres… Pode ser que eu não me sinta com caras, eu não vou sair com qualquer cara, sabe. Mas ainda me dá um pouco de receio, até em relação ao meu corpo, de eu não estar confortável com o meu corpo.












Acho que a gente desconstrói muita coisa, não só com o corpo, mas da vivência mesmo, de interferir nas relações. A minha transição interferiu em muita coisa, a tua transição interferiu em muita coisa, não só contigo, mas com a tua família, com os teus amigos. Acho que gera uma mudança muito grande no nosso entorno. Acho que ser trans é essa transgressão. Essa mudança. Acho que é muito da gente se reinventar. Da gente buscar formas de se reinventar, de se redescobrir. Existem muitas possibilidades de ser trans.









No início eu tive bastante resistência a aceitar. Eu queria ser normal, sabe. Tipo eu falava mas eu via que eu tava sofrendo, não tava sendo fácil. Por eu só querer ser normal.. Tipo, "ai, tá, só quero ser uma mina sapatão, já deu", sabe? Hoje eu dia eu já penso ao contrário, já penso que.. Aquilo que eu falei antes, se eu não fosse trans eu gostaria de ser trans. Eu acho muito massa, sei lá, se eu quiser sair de vestido amanhã eu saio, se eu quiser sair de bermudão eu saio, enfim, fodasse. 

















Mas isso das relações mudou bastante, assim. Eu tenho sentido que as pessoas estão mais abertas a ficar com pessoas, não mais tanto "ah sou sapatão, vou ficar só com mina". Eu vejo que as pessoas estão se abrindo mais, ao menos as pessoas com quem eu convivo, que se identificavam muito como uma mina sapatão e agora estão tipo "sou bi", "sou pan". De levantar a bandeira "sou sapatão", que eu acho que é massa, eu acho que é uma luta bem forte assim, mas já tá mudando bastante isso assim, estarem "tá, eu fico com pessoas, gosto de pessoas", sabe. Da mesma forma que eu acho que buga a nossa cabeça disso das relações, porque meu, uma hora eu era uma mina lésbica, daí agora eu sou um boy que fica com mina mas também não se identifica como hetero, daí agora to sentindo outras coisas... Sei lá, acho que a gente sempre tá fluindo assim, acho que sexualidade e gênero são fluidos. Pode ser que agora tá rolando uma transição, que eu to transicionando para parecer mais masculino socialmente, mas pode ser que eu mude daqui um tempo, queira, sei lá, ser mais feminino. 

É que tem muitas possibilidades, entende. Eu vejo o corpo como algo muito fluido, tipo, eu não sei como vai ser o dia de amanhã. Pode ser que eu me identifique com outra coisa, que eu goste de outra coisa. Volte a comer carne, sei lá.











Em relação ao corpo, eu ando mais disfórico em relação aos meus seios. Acho que é a parte que mais me incomoda. Eu quero muito que [a mastectomia] aconteça logo. Só que eu sei que vai demorar um tempo... Eu vejo que eu até me curvo. Eu não consigo usar binder porque eu acho desconfortável, não uso nada que me aperte, sabe. Quando eu vou pra academia às vezes eu uso top, às vezes não uso nada. Porque eu não gosto de nada me apertando, me sufocando.




Teve um rolê na praia, no carnaval, uns dois anos atrás, que eu tinha tomado um doce e tava um rolê meio ruim assim, um som estranho, uma galera meio estranha. E daí tava batendo muito bom e depois virou uma vibe meio estranha. E eu fui dar um rolê sozinho e veio muito forte isso. Eu tava ainda me descobrindo, tentando entender. Não tinha conversado com muita gente e tal… E eu tava de biquíni, nossa aquele biquíni tava me apertando, me sufocando de alguma forma. E eu lembro até hoje de como foi forte esse momento que eu tirei o biquini e fiquei de regata, fiquei com o peito livre, as costas livres, a nuca, de conseguir respirar e nada apertando. Foi libertador. E eu imagino que o dia que eu conseguir fazer a cirurgia eu vou ter a mesma sensação. Porque eu sinto muito que é algo que não é meu, sei lá, que não me pertence.












E era uma vontade que eu já tinha há muito tempo assim, de vender fotografias, porque eu tenho um acervo bem grande de fotos. Eu vinha produzindo bastante coisa desses rolês que eu dou, de convidar artistas, criar junto com amigos. Estou vendendo as fotos agora com esse objetivo de arrecadar grana pra mastectomia. Porque na fila do SUS tá tipo muito grande, só tem aumentado os dias. Não tem diminuído, só tem aumentado. E como eu to cada vez mais com vontade de fazer e mais certeza do que eu quero, eu pensei em vender o meu trampo. Todos os extras que eu to fazendo, de vendas de fotos, vendas de ímãs, freela de foto, esse dinheiro todo tá sendo direcionado pra minha mastectomia. Acredito que em um ou dois anos eu consiga juntar a grana se eu focar nisso. Eu botei esse objetivo assim porque acho que meu maior sonho hoje em dia é isso. Eu tenho vários sonhos, mas o que tá mais me batendo todo dia é isso.













Já me senti desconfortável pelas pessoas não respeitarem o meu pronome. E são pessoas jovens, que têm acesso à informação, às vezes. Sei lá, quando a pessoa é jovem e tem acesso à informação já me incomoda um pouco quando tu tem que repetir a mesma coisa algumas vezes, sabe? Daí eu já noto que, cara, a pessoa tá com um pouco de dificuldade de respeitar, sabe.


Eu acho que a gente ainda tá se unindo. Acho que existem muitas pessoas trans mas muito separadas. Acho que agora a gente ainda tá se unindo mais e se fortalecendo, então eu me sinto mais seguro quando isso acontece. De eu ter mais amigos trans, de eu ter mais pessoas trans próximas, eu acabo me sentindo mais seguro.















Eu sofri transfobia na parada livre ano passado. O cara não deixou eu usar o banheiro masculino, não deixou eu entrar. Foi super escroto e tipo, eu tava no meio de uma parada LGBT, sabe. Eu não esperava passar por isso. Eu tava no meio de uma parada LGBT e ninguém me ajudou. Então eu vejo que no meio da comunidade LGBT ainda é perigoso pra gente. A gente não é respeitado pelas outras siglas. Então por isso eu falei daquilo da gente se unir, da gente criar a nossa rede de apoio. E eu vejo que ainda tá no início assim. Não me sinto completamente seguro em Porto Alegre.

Em São Paulo, a cena, ao menos nas vezes que eu fui, eu vi que tem bastante pessoas trans. Ao menos no rolê que eu fui tinha muita gente trans. É que tem muita gente em São Paulo (risos). Mas aqui em Porto Alegre também, nos rolês que eu vou assim, de uns anos prá cá eu comecei a ver mais pessoas trans nos rolês. 















Tenho os meus processos assim. Às vezes eu to super pilhado pra fazer e vender e vou falar em rede social, vou trocar ideia com a galera, e às vezes eu não to com energia assim, não to com vontade, sei lá, to com baixa autoestima, "meu trampo é uma merda" sabe (risos), tipo "que que eu to fazendo? Não sei se quero fazer isso", daí eu caio nessas.

Isso me assusta um pouco, me gera bastante ansiedade, isso de rede social. Porque eu vejo que as relações estão cada vez mais rasas, mais vazias e desconectadas. Ao mesmo tempo as pessoas estão extremamente conectadas e desconectadas sabe. Então isso me assusta um pouco… de que rumo isso vai levar, sabe? Eu tento ficar um pouco longe, mas é difícil. Eu tenho controlado o meu uso no instagram, mas muitas vezes eu to tentando me concentrar pra fazer alguma coisa no computador ou no trabalho e cara as vezes eu tenho que deixar o celular longe, em outro cômodo. Não é nem pra ler nada, é só vício de.. Às vezes se ele tá do lado tu fica tipo se segurando pra não mexer. 













Ser artista tá foda. Cada vez pior eu acho na real, ainda mais aqui no Brasil. Não tem incentivo nenhum na cultura. 

Meio que a gente acaba se contentando com o mínimo, parece. De tipo "trans free". Agora meio que o rolê trans tá tendo uma visibilidade maior, eu vejo que cada vez mais tem pessoas - não sei se eu to entrando cada vez mais nessa bolha ou se tá acontecendo mesmo. Mas.. Tá sendo cada vez mais falado sobre isso né. Mas ao mesmo tempo que eu acho legal isso do trans free e "queremos abrir editais e as pessoas pretas e as pessoas trans têm mais chances de entrar"... Cara, eu acho bom ter isso, mas ao mesmo tempo é muito problemático. Tem que ter uma cota de tão desigual que é a coisa. Tu tem que criar uma cota porque os homens brancos cis tomaram conta de todos os espaços. E isso me incomoda. 

Porque que tá rolando trans free? Porque as pessoas trans estão em vulnerabilidade social, elas não tem grana pra pagar uma entrada. Porque elas não tem grana pra pagar uma entrada? Tipo, muda desde lá do início. É um outro rolê. Eu acho que é importante tentar agregar todo mundo mas olhar pro problema maior né, não só ficar tapando o sol com a peneira. O problema é maior que isso. 










Eu tô super feliz assim de estar me conhecendo cada vez mais. E eu vejo que foi fundamental eu me aproximar de muita gente assim pra esse meu desenvolvimento. E a fotografia me levou a isso, de eu estar fotografando essas paradas, esses movimentos LGBTs, esses rolês, eu acabava me aproximando das pessoas e as pessoas que eu me aproximava para fotografar eram pessoas que me despertavam algo, algum interesse. E a partir disso eu fui me desenvolvendo. Eu vejo a fotografia como um terceiro braço do meu corpo assim.

O meu trabalho também é meio que, não tenho um nome do meu trabalho porque é meio que o trabalho da vida assim, eu vejo como um trabalho da vida. Porque tem coisas muito minhas, íntimas, e tem isso desses lugares, desses movimentos, dessas festas, dessa intimidade com amigos, que eu acabo me redescobrindo sempre, sabe. Quando eu convido alguém pra criar junto, eu gosto muito de convidar amigos ou pessoas que eu conheci ou que eu sei lá, só vi assim e aquela pessoa me despertou algo e a partir disso a gente virou amigo, sabe? Tem muito isso nas minhas relações, que a partir de uma troca de fotos, de um ensaio, a gente acabou criando uma amizade muito massa assim sabe.

E eu tô muito pilhado na coisa de coletivo, de fazer coisas junto. Meu, eu acho que isso agrega tanto, pra todo mundo sabe, do que tu fazer as coisas sozinho. Ainda mais a gente que tá buscando, que nem a gente disse antes, estar em museu, estar, sei lá, de estar em posições onde só pessoas privilegiadas tem sabe. A gente tá buscando isso e eu acredito que fazendo isso coletivamente a gente tem uma força maior.









Não desista. Na minha vivência, em vários momentos eu pensei em desistir, tipo, em guardar isso comigo e bloquear e tentar viver essa vida normativa que eu vivia antes, sabe. Não desista, se comunique, crie tua rede de apoio, que é fundamental, tu pesquisar sobre, tu buscar conhecimento sobre o que tu tá sentindo, tu fazer terapia. Faça terapia! (risos). E falar sobre, não só falar sobre teu gênero, tua sexualidade, mas sobre quem tu é assim. É quem tu é, né. E a gente tem vários traumas e questões que não são só sobre ser trans que é importante a gente falar. Acho que comunicação é fundamental pra gente viver um pouco melhor nesse mundo louco.

O recado que eu daria pra alguém é isso, de se comunicar, sabe. Claro, tem pessoas certas pra tu conversar algumas coisas assim. Mas de tu sentir, ah, sei lá 'eu me sinto confortável falando com aquela minha tia', tipo, uma relação mais familiar assim. Tenta conversar sabe, talvez tua mãe não te entenda mas tua tia te entenda.

Eu recentemente recebi uma mensagem muito bonita assim da minha tia. É uma tia que ela meio que é como uma segunda mãe assim pra mim. Eu passava bastante tempo na casa dela, minha mãe me deixava lá pra ela me cuidar. E ela me mandou uma mensagem linda assim - Tanto é que esses girassóis * aponta para fotografia* é "Girassóis da Tia Sue" o nome da obra. E são os girassóis dela, da casa dela. Daí ela falou que quer comprar as duas [fotos], que tipo, quer me ajudar, que ela me apoiou quando eu era criança e quer me apoiar agora, enfim foi uma mensagem muito fofa, sério. E é uma tia que não conversa muito comigo, mas ela me criou quando eu era criança assim. E ela é professora, então tu vê que ela é mais aberta. Então talvez eu poderia ter conversado com ela, não precisava ter sofrido tanto, sabe? Porque ela é uma pessoa que talvez teria me entendido, talvez o meu processo teria sido um pouco menos doloroso pra mim. Eu teria sofrido um pouco menos, porque eu sofri meio que sozinho assim, de guardar muito. Eu não falava muito, então eu guardava muito.

Por isso que eu falo, conversem, sabe. Acho que o fundamental é tu conversar. Sobre qualquer coisa, coisas que estão te dando uma inquietude, acho que é importante. 




Lau Baldo.
Porto Alegre, RS, Brasil. 1994.

Atua como fotógrafo e artista visual independente.
Encontra nas ruas os principais temas do seu trabalho, desenvolvendo projetos com ênfase nas questões de gênero e sexualidade documentando a cena LGBTQIA+.


Transmasculino.
E
le/dele.
1 ano em Terapia Hormonal.

@laubldo

*ensaio realizado em Porto Alegre (RS) em outubro de 2020.  
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Esse projeto é feito por mim, Gabz. Sou uma pessoa trans não-binária e busco não só retratar mas também abrir um espaço onde outras pessoas trans possam contar suas histórias, pra dar suporte pra nossa própria comunidade. Depois de muito sofrer com a carência de referências de narrativas trans que me contemplassem percebi que essas pessoas existem e sempre existiram, porém por motivos CIStêmicos as poucas vezes que temos oportunidade de contar quem somos acaba sendo através da lente de pessoas que não sabem como é a nossa vivência. Comecei esse projeto por urgência.
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